Matéria na revista Tempo Cerâmico

Arte na Indústria

Sou ceramista há mais de 30 anos, fruto de um comentário nos corredores da faculdade, “Você fala muito com as mãos”.
O meu trabalho é bastante diverso e multifacetado, várias são as vertentes.
Em meu ateliê sou mais introspectiva, lá ele é impregnado de mistérios provocativos.
Adoro criar situações onde o resultado instiga a imaginação do observador. Muitas vezes, ele, o observador, não se contenta em apenas olhar. Toca furtivamente, às vezes até cheira o trabalho na ânsia de descobrir o que é aquilo.

Em uma das vertentes de meu trabalho faço esferas onde o dentro e o fora se revelam, criando meu próprio universo de planetas.

Na evolução de meu processo criativo  era premente que a provocação fosse ampliada.
Queria que  o Observador, literalmente, mergulhasse dentro das esferas; tivesse uma oportunidade sensorial maior. Elas tinham que crescer. Era veemente o chamado.

Para proseguir com meu sonho fui em busca de um forno maior para fazer crescer as esferas.
Apesar de paulistana, razões pessoais e afetivas me levaram ao Estado de Minas Gerais. Bati às portas da Cerâmica Parapuan, situada em Pará de Minas.
Imediatamente fui arrebatada por aquela visão das manilhas e logo mudei meu projeto. Interrompi a idéia das esferas enormes para eu mesma “mergulhar” nas manilhas.

A circularidade, o dentro e o fora, o escuro…foram os conceitos que as aproximaram das esferas, naquela visão estonteante.

Iludida assim, dei início a uma nova empreitada.
Durante meu processo criativo sempre estabeleço vários diálogos  com a matéria, com o visível e o invisível

No entanto, lá na indústria, no afã de produzir nem dei atenção a alguns fatos. As manilhas remetem a um simbolismo próprio e que traduzem combinações subjetivas de sentimentos e pensamentos de outra instância, ao mesmo tempo que podem ser associadas a formas existentes na natureza e que. Se vistas como colunas,  já foram amplamente usadas no decorrer da história do homem.

Sua verticalidade é pungente, a simetria é absoluta!

Também, desconsiderei alguns quesitos técnicos como o tipo e o ciclo da queima, a qualidade da argila, e a forma como são fabricadas.
As manilhas “nascem” para serem tratadas como manilhas. Eu queria dar aelas o mesmo tratamento que dava às minhas esferas, queria trilhar os mesmos caminhos.

Diante disso, retrocedi alguns passos,  e me abri, novamente, ao desconhecido.

A atração que as manilhas me provocavam era cada ves mais fortre.  Me fiz a pergunta: Então, o que fazer?

Diante do conflito nasceu uma inspiração.A dica era a luz.

Iniciei a construção de luminárias escultóricas, totens.

E assim surgiu outra vertente de meu trabalho, mais recente. Design em cerâmica, voltada para a arquitetura e também decoração.

Aos poucos os funcionários da empresa Cerâmica Parapuan foram se interessando e se aproximando, com muita curiosidade sobre meu trabalho.
E nesse mesmo tempo, ao andar pela fábrica percebia que aqui e ali haviam alguns trabalhos dos funcionários. Eram bichos realizados em formas ou modelagem, alguns utilitários como tijelas para animais, casinhas feitas à partir de tijolos cerâmicos, pequenos oratórios e cofrinhos para moeda. Tudo muito timidamente realizado.
O momento crucial foi a notícia do 3º Salão e Congresso Nacional de Cerâmica de Curitiba. Consultados os donos da empresa e os funcionários sobre sua participação no Salão, não houve hesitação. Formou-se o Grupo Parapuan.
Desde então, já foram enviados trabalhos dos funcionários para alguns salões: 3º Salão de Curitiba, Bienal Naif de Piracicaba – SP, Grande Exposição de Arte Bunkyo na Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa em São Paulo.

Todo o processo foi uma surpresa. Não imaginava que seu desdobramento tocaria em algo para além do meu trabalho e da vida dos funcionários da fábrica: O Projeto Parapuan – Arte na Indústria. Um projeto de inclusão social.
Ouvi depoimentos espontâneos de funcionários da empresa Parapuan ao se depararem com o resultado do processo criativo no qual eles se engajaram, por conta do projeto:
- “Puxa, quanta coisa! Tantos anos aqui e nunca pensei que isso fosse possível!”.
- “Se não fosse por você, tudo isso ficaria socado aqui dentro”.

Nesse período chegou-me às mãos a frase de Yoko Ono e que Raul Seixas também cantou: “Um sonho sonhado por um é so um sonho que se sonha só;
Um sonho sonhado por muitos é REALIDADE.”
“Caiu como uma luva”.

Passou-se o tempo e atualmente os alunos e instrutores da Escola de Artes da Secretaria de Cultura de Pará de Minas, também se juntaram ao Grupo Parapuan. São recebidos pelos funcionários, que além de orientá-los, conjuntamente desenvolvem trabalhos criativos e que surpreendem o observador.
Assim nasceu o Projeto Parapuan Arte na Indústria, e agora que transpôs os muros da Empresa e os limítes da cidade, o projeto ampliou suas fronteiras.
Projeto Parapuan,  Arte na Indústria: Para Além do Trabalho.

Recentemente fomos convidados a participar da 23ª Feira de Cerâmica de Belo Horizonte, realizada nos dias 29 e 30 de abril e 1º de maio.
Os trabalhos de todos, alunos, funcionários e os meus, fizeram sucesso.
O Projeto ganhou visibilidade e todos estão mais motivados a criar e desenvolver objetos de design e esculturas belíssimas em manilhas e tijolos.

O que mais me fascina é como o olhar efervescente de um imaginário estimulado é capaz de transformar um objeto projetado para ficar na horizontal, enterrado, no escuro, úmido,esquecido,  e  revelar sua nobreza e dignidade, antes, invisíveis; e tudo por causa de um sonho: na busca de um forno maior, as manilhas foram trazidas à tona e iluminadas.

Como diz Manoel de Barros:
“…que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica, nem com balanças nem barômetros, etc…
Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”
Gramática explositiva do chão: poesia quase toda.

Esse envolvimento da “Arte na Indústria” está produzindo uma leva muito interessante de produtos que podem receber água, ficar ao ar livre, receber luz, como os protótipos que desenvolvi.
Eu e os outro participantes do Projeto Parapuan, nos dispomos a desenvolver projetos de criação de outros artistas, designers e profissionais da área de criação tendo como suporte as manilhas e os tijolos produzidos pela Cerâmica Parapuan.
Esperando que em breve possamos trocar algumas idéias, gostaria de finalizar com palavras de meu mestre Mestre Megumi Yuasa “o artista é um agente da fé, pois ele faz o que não vê porque acredita que está lá”.

Arte na Indústria

Sou ceramista há mais de 30 anos, fruto de um comentário nos corredores da faculdade, “Você fala muito com as mãos”.

O meu trabalho é bastante diverso e multifacetado, várias são as vertentes.

Em meu ateliê sou mais introspectiva, lá ele é impregnado de mistérios provocativos.

Adoro criar situações onde o resultado instiga a imaginação do observador. Muitas vezes, ele, o observador, não se contenta em apenas olhar. Toca furtivamente, às vezes até cheira o trabalho na ânsia de descobrir o que é aquilo.

Em uma das vertentes de meu trabalho faço esferas onde o dentro e o fora se revelam, criando meu próprio universo de planetas.

Na evolução de meu processo criativo  era premente que a provocação fosse ampliada.

Queria que  o Observador, literalmente, mergulhasse dentro das esferas; tivesse uma oportunidade sensorial maior. Elas tinham que crescer. Era veemente o chamado.

Para proseguir com meu sonho fui em busca de um forno maior para fazer crescer as esferas.

Apesar de paulistana, razões pessoais e afetivas me levaram ao Estado de Minas Gerais. Bati às portas da Cerâmica Parapuan, situada em Pará de Minas.

Imediatamente fui arrebatada por aquela visão das manilhas e logo mudei meu projeto. Interrompi a idéia das esferas enormes para eu mesma “mergulhar” nas manilhas.

A circularidade, o dentro e o fora, o escuro…foram os conceitos que as aproximaram das esferas, naquela visão estonteante.

Iludida assim, dei início a uma nova empreitada.

Durante meu processo criativo sempre estabeleço vários diálogos  com a matéria, com o visível e o invisível

No entanto, lá na indústria, no afã de produzir nem dei atenção a alguns fatos. As manilhas remetem a um simbolismo próprio e que traduzem combinações subjetivas de sentimentos e pensamentos de outra instância, ao mesmo tempo que podem ser associadas a formas existentes na natureza e que. Se vistas como colunas,  já foram amplamente usadas no decorrer da história do homem.

Sua verticalidade é pungente, a simetria é absoluta!

Também, desconsiderei alguns quesitos técnicos como o tipo e o ciclo da queima, a qualidade da argila, e a forma como são fabricadas.

As manilhas “nascem” para serem tratadas como manilhas. Eu queria dar aelas o mesmo tratamento que dava às minhas esferas, queria trilhar os mesmos caminhos.

Diante disso, retrocedi alguns passos,  e me abri, novamente, ao desconhecido.

A atração que as manilhas me provocavam era cada ves mais fortre. Me fiz a pergunta: Então, o que fazer?

Diante do conflito nasceu uma inspiração.A dica era a luz.

Iniciei a construção de luminárias escultóricas, totens.

E assim surgiu outra vertente de meu trabalho, mais recente. Design em cerâmica, voltada para a arquitetura e também decoração.

Aos poucos os funcionários da empresa Cerâmica Parapuan foram se interessando e se aproximando, com muita curiosidade sobre meu trabalho.

E nesse mesmo tempo, ao andar pela fábrica percebia que aqui e ali haviam alguns trabalhos dos funcionários. Eram bichos realizados em formas ou modelagem, alguns utilitários como tijelas para animais, casinhas feitas à partir de tijolos cerâmicos, pequenos oratórios e cofrinhos para moeda. Tudo muito timidamente realizado.

O momento crucial foi a notícia do 3º Salão e Congresso Nacional de Cerâmica de Curitiba. Consultados os donos da empresa e os funcionários sobre sua participação no Salão, não houve hesitação. Formou-se o Grupo Parapuan.

Desde então, já foram enviados trabalhos dos funcionários para alguns salões: 3º Salão de Curitiba, Bienal Naif de Piracicaba – SP, Grande Exposição de Arte Bunkyo na Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa em São Paulo.

Todo o processo foi uma surpresa. Não imaginava que seu desdobramento tocaria em algo para além do meu trabalho e da vida dos funcionários da fábrica: O Projeto Parapuan – Arte na Indústria. Um projeto de inclusão social.

Ouvi depoimentos espontâneos de funcionários da empresa Parapuan ao se depararem com o resultado do processo criativo no qual eles se engajaram, por conta do projeto:

- “Puxa, quanta coisa! Tantos anos aqui e nunca pensei que isso fosse possível!”.

- “Se não fosse por você, tudo isso ficaria socado aqui dentro”.

Nesse período chegou-me às mãos a frase de Yoko Ono e que Raul Seixas também cantou: “Um sonho sonhado por um é so um sonho que se sonha só;
Um sonho sonhado por muitos é REALIDADE.”

“Caiu como uma luva”.

Passou-se o tempo e atualmente os alunos e instrutores da Escola de Artes da Secretaria de Cultura de Pará de Minas, também se juntaram ao Grupo Parapuan. São recebidos pelos funcionários, que além de orientá-los, conjuntamente desenvolvem trabalhos criativos e que surpreendem o observador.
Assim nasceu o Projeto Parapuan Arte na Indústria, e agora que transpôs os muros da Empresa e os limítes da cidade, o projeto ampliou suas fronteiras.

Projeto Parapuan,  Arte na Indústria: Para Além do Trabalho.

Recentemente fomos convidados a participar da 23ª Feira de Cerâmica de Belo Horizonte, realizada nos dias 29 e 30 de abril e 1º de maio.

Os trabalhos de todos, alunos, funcionários e os meus, fizeram sucesso.

O Projeto ganhou visibilidade e todos estão mais motivados a criar e desenvolver objetos de design e esculturas belíssimas em manilhas e tijolos.

O que mais me fascina é como o olhar efervescente de um imaginário estimulado é capaz de transformar um objeto projetado para ficar na horizontal, enterrado, no escuro, úmido,esquecido,  e  revelar sua nobreza e dignidade, antes, invisíveis; e tudo por causa de um sonho: na busca de um forno maior, as manilhas foram trazidas à tona e iluminadas.

Como diz Manoel de Barros:

“…que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica, nem com balanças nem barômetros, etc…

Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”

Gramática explositiva do chão: poesia quase toda.

Esse envolvimento da “Arte na Indústria” está produzindo uma leva muito interessante de produtos que podem receber água, ficar ao ar livre, receber luz, como os protótipos que desenvolvi.

Eu e os outro participantes do Projeto Parapuan, nos dispomos a desenvolver projetos de criação de outros artistas, designers e profissionais da área de criação tendo como suporte as manilhas e os tijolos produzidos pela Cerâmica Parapuan.

Esperando que em breve possamos trocar algumas idéias, gostaria de finalizar com palavras de meu mestre Mestre Megumi Yuasa “o artista é um agente da fé, pois ele faz o que não vê porque acredita que está lá”.

Atêlie Matéria da Terra - Esculturas e Cerâmicas - cel.: +55 11 9915 9910
Copyright 2017 - Nadia Saad - Todos os direitos reservados