A Esfera texto de Megume e Naoko

A Esfera

Elas estavam lá, quase sonoras, mas silenciosas. Estáticas e em movimento para algum espaço secreto. Irrequietas mas soberanas e serenas. Derradeiras porque sem mentiras nem seduções fáceis, sem concessões nem negociações com curadores, críticos e leitores entendidos não eleitos ou eventuais interessados da sociedade, muito menos com a corte glamurosa mas desgastada.

Compromisso apenas com o espaço onde dialogam arte e outros conhecimentos de todas as disciplinas, épocas e lugares, vivos e mortos, em comunhão universal.

Aparições tornadas visíveis sobre papel craft encorpado. Emergências que falam mistérios de outros reinos invisíveis. Urgentes, velozes, mas passo a passo.

Beleza não era a palavra que melhor definia o que nos emocionava, mesmo sendo correta, alegria ou tristeza tão pouco. Talvez a palavra VITAL aproximasse mais paradoxalmente, pois a autora não estava mais. Era uma homenagem à mãe morta, pintora, que de alguma forma permanecia em sua trajetória,

Pinturas poderosas como montanhas de difícil conquista nos elegeram observadores, Naoko e eu, num cômodo onde estavam expostas na homenagem.

Impressionados, falamos dessas obras que tomaram conta do primeiro encontro. Estávamos os três, Nadia, Naoko e eu tocados pela energia que emanava das pinturas.

De alguma forma elas nos acompanhariam durante os vários encontros e nos convenceram que o diálogo das cerâmicas de Nadia, com as obras vigorosas de sua mãe seria inevitável. Diálogo de colegas, de artistas de iguais.

Nadia dizia como para si mesma: “Como? Se sequer sei pintar ou desenhar? Minha Mãe é a artista.” Não era verdade.

Mais do que a tridimensionalidade dos objetos, o que evidenciavam eram superfícies em cores e relevos, verdadeiras pinturas representando espaços siderais.

Os suportes eram cones truncados, pequenas telas de cerâmica, para se posicionar vertical ou horizontalmente sobre a base do círculo menor, mais ou menos de 15 centímetros. Na maior, de mais ou menos 25 a 30 centímetros, a pintura relevo.  Fissuras aproveitadas, costuras, vidros, óxidos, metais, sais, esmaltes, que traziam alegria dos relevos e das cores nas pintura.

Logo surgiram esferas semelhantes aos corpos celestes: planetas, satélites, etc. Desenhos, pinturas, relevos sobre a superfície externa.

Nadia dizia: “Gosto porque não há lados, em cima ou em baixo como se fosse corpos em equilíbrio dinâmico, movendo-se em todas as direções.”

Na fase seguinte, a esfera era partida, às vezes era amassada, e o trabalho interno era tão expressivo e denso quanto o externo ou mais. Materiais diversos, praticamente tudo o que se possa imaginar, eram incorporados, enquanto preservados os espaços já? Adequados: Lascas de vidro, pedaços de metais, limalhas, madeira, plásticos, esponjas, fibras de vidro, outras formas de vegetais como bucha, mergulhada ou não em soluções de argila, pedras de diversas cores ou formas, minerais diversos, ossos, sais, esmaltes, óxidos, etc.

Encontros, fusões, simbioses de formas e matérias, cores e espaços, na dialética dentro e fora. Oxidações de toda ordem, reações químicas e orgânicas, algumas esperadas, outras imprevisíveis, acidentes provocados até a radicalidade com riscos de perder parcial ou totalmente, numa construção-destruição-reconstrução e vice versa. Paroxismo alquímico de corpo-espírito, luz-treva, dentro-fora, longe de ser um exotismo.

Como conseqüência desta ponte ou porta, dentro ou fora, a transparência e a translucidez eram desejadas. Desejo de espiar dentro. Os objetos foram desbastados até a espessura mínima e ainda acrescentados fundentes ou argila clara como feldspato, cinzas de ossos, esmaltes. Os objetos-escultura respiravam.

O processo era o fim, e o resultado, registro. Cada objeto era como fotograma de um longo filme. O final de um projeto era início de um novo.

Apesar de ser registro, fotograma ou continuidade do processo, cada objeto era definitivo, tinha sua autonomia, sua identidade.

Os acasos e acidentes construíram poderosa intuição poética e ofertaram novos prazeres. Um deles, esperar o inesperado.

Os objetos-escultura de Nadia elegem o espectador, como o emergente escolhe o observador que dará significado, e exigem dele um novo olhar, degustação de novas sensações.

As vivências fora do fazer artístico propriamente dito, como a vida em família, trabalho na Assembléia Legislativa, sua formação como psicóloga, amigos, vida afetiva em geral, esporte (rali), viagens, solidão, doença, dor, alegria, sede de viver, desespero, fé, conversas com vivos e mortos, na poética de Nadia navegam juntas, sem estranheza, como partes das matérias primas de sua criação.

Tudo se entrelaça e se confunde na criação poética. Seu palco apresenta metáforas vividas. Ora o objeto elege a vida, ora a vida escolhe a arte para se expressar. Ora como símbolo, ora como expressão mais direta da imaginação material.

Há ansiedade, urgência, vontade de velocidade, caos e atropelo, sede de viver, congestionamentos. Mas estão preservados o sentido e a direção pela fé e intuição que percebe adiante.

Os objetos-escultura atingiram a máxima densidade expressiva do momento, e assustam a maioria dos espectadores. São como seres em convulsão. Eles respiram, movem-se em direção à espaços secretos, desconhecidos. Reagem quimicamente dentro e fora do forno, deixando resíduos secos espalhados em suas bases, como se fossem secreções. Sais e óxidos, ácidos e gazes transmudam suas aparências.

Estão vivos como a expressar a própria urgência da vida de Nadia. Nada ilustrativo, vida e obra se entrelaçam sem perder a identidade de cada uma. Nasce uma terceira personagem, que expressa mistérios do invisível.

A artista governa, escolhe aceitar ou recusar, avançar ou recuar do lugar e momento, o objeto do desejo.

Mais do que pesquisa, ensaio ou experiência, era achado, como diria Picasso, Encontro, mais do que procura.

Não são mais representações. São existências autônomas, identidades sem comparações. Os objetos criam sua própria realidade, não mais se prendem à temas. Emergentes, eles são, apenas existem.

Há a serenidade porque o caos pouco a pouco se organiza na poesia. A arte , a criação a libertou do excesso, do desconforto da multiplicidade, da ansiedade. É hora de síntese. Do usufruto do conhecimento. A velocidade é maior!

Velocidade de alçar vôo de novos devaneios e venturas poéticas, na altura das montanhas poderosas. Pinturas de sua mãe, como colegas, como diferentes e iguais.

Talvez a dificuldade de leitura dos objetos-escultura de Nadia esteja menos na radicalidade da imaginação material e seu uso aparentemente desordenado e caótico, dando aspectos expressivos e dramáticos dos objetos e mais no efeito espelho em que aparece o drama vital do leitor diante da vivência da artista. Como já foi dito, o leitor terá de oscilar conforme a dança e ritmo do objeto escultura, e evitar leituras acadêmicas ou técnicas tão comuns entre ceramistas e artistas.

Nadia não poupa esforços para tirar os véus que impedem a transparência ou pelo menos a translucidez do seu interior, para revelar sua alma por inteiro, sem lados, ou de todos os lados, como numa esfera.

Mais do que todos os adjetivos de admirações ou vitórias, a palavra VITAL, como no trabalho de sua mãe, é aceita como parte de uma inegável realidade do diálogo e comunhão universais.

Guerreira navegante “por mares nunca dantes navegados”, convida a quem interessa, antes de tudo, para novas atitudes diante da matéria e do mundo.

Naoko e Megume
Itu, verão quente de 2006.

P. S.
A obra de Nadia elegeu um observador na multidão. Um olhar apurado e uma expressão corajosa, lapidados pela próprias existência, é um testemunho ético. Texto vigoroso de compreensão, generosidade, afeto e fé, junto com o objeto-escultura de Nadia, caminha definitivamente em direção ao espaço infinito, sem preconceitos, ou objetivos pré-estabelecidos onde comungam de conhecimentos de várias disciplinas, criações diversas, num diálogo ininterrupto e universal.

Texto e obra tridimensional, autor e testemunho, emergência e observador, íntimos no espaço secreto como partes do todo.

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