Texto de Jacob Klintowitz

Breve ensaio sobre o tempo,
os deuses e a imortalidade.

Talvez não saibamos exatamente o que seja “corações partidos”, síntese que a artista Nadia Saad utiliza para designar a sua série de cerâmicas. Mas o encontro com as delicadas filigranas que percorrem e definem a epiderme dessas peças e o desenho que ora se revela, ora se oculta aos nossos olhos, e a inesperada surpresa das irregularidades das formas, aqui e ali, interrompidas e enriquecidas por cortes e quebras, nos fornece a sensação de que o entendimento se dará pela entrega total do contemplador. Partido ou aberto, palpitante ou imobilizado, o coração é um símbolo adequado para sediar a emoção deste percurso.
É notável como a artista persegue a linha, como observa os indícios, sente a superfície da cerâmica e encontra o desenho e o torna em fio condutor da estrutura. E guia mestre da visão. A sua é uma relação de intimidade com a matéria, como se ambas, artista e matéria informe, estivessem juntas na tarefa de criar um objeto sensível.
Os seus objetos cerâmicos têm qualquer coisa de ouriversaria no requinte do detalhe, na atenção ao precioso, na clara intenção de marcar a individualidade de cada peça. O tropismo em direção à identidade é permanente e, neste sentido, não é possível distinguir entre a cerâmica e a autora devido à evidência da mão da artista. Neste caso, através do foco que cada cerâmica recebe é possível perceber o caminho de Nadia Saad na construção de sua personalidade artística.
O caráter minimalista da concepção permite observar claramente o quanto de orgânico tem estas formas. E o sistema de constituição de cada uma destas peças acentua esta natureza: filigranas, ourivesaria, a pintura após a queima, a matéria translúcida, as minúcias evidenciadas, o desenho como um fio revelador.
A natureza orgânica das formas de Nadia Saad e o método de sua criação – a concepção, a queima e a intervenção posterior – nos oferece a perspectiva da tentativa de controle do processo de nascimento e existência de cada peça, como se a artista, no seu fazer de alta concentração psíquica, desafiasse Cronos. É a ação artística que definará o nascimento, a vida e a morte, caracterizados na criação da forma, no domínio da matéria inorgânica, na introdução do princípio vital através da prova do fogo, na adoção como elementos estéticos da fratura, da fissura e da fragilidade e, finalmente, no uso da pintura de forma livre, eufórica e  delirante.
Desafio ao Cronos. Ou meditação sobre o tempo. Ou breve ensaio sobre o tempo, os deuses e a imortalidade. Nadia Saad se coloca como artífice da criação e torna as suas cerâmicas seres individualizados. Mais precisamente, a identidade do artista e a permanente interlocução com a vida breve.


Jacob Klintowitz

Atêlie Matéria da Terra - Esculturas e Cerâmicas - cel.: +55 11 9915 9910
Copyright 2019 - Nadia Saad - Todos os direitos reservados