Conferência: O Barro na Arte

Em primeiro lugar, com muita satisfação e carinho, quero agradecer o convite para este Seminário. Estou contente por ter esta oportunidade de compartilhar idéias sobre um assunto que me é tão familiar: “o barro na arte”. E principalmente,  estou contente por fazê-lo no Seminário ARTE E MITOLOGIA NA OBRA DE FRANSCISCO BRENNAND – um espaço de reflexão à altura de sua importância e complexidade. Quero registrar que tive a oportunidade de conhecer as oficinas com minha família e ser recebida pelo próprio Brennand, em 1989, e já naquele tempo, conversávamos sobre a atitude de incorporar em seu trabalho fragmentos de cerâmica de diversas procedências, encontradas nas mais diferentes situações, tendo o fogo como parceiro de novas procuras e surpreendentes possibilidades. É sobre essa diversidade do uso do barro na arte que pretendo falar.
Seria possível abordar este assunto pela perspectiva histórica, uma vez que a manipulação deste material é uma das ações mais antigas na humanidade, caracterizando, aliás, etapas importantes na evolução do homem – enquanto  processo de produção desde os utensílios mais rudimentares até as suas aplicações atuais em diversas áreas do conhecimento. A descoberta da queima como processo para dar maior resistência à matéria é utilizada tanto em produções de utilitários de pequeno porte como em estruturas monumentais. A evolução desse conhecimento também inseriu a cerâmica em especificidades da alta tecnologia, como é o caso da produção de lâminas cirúrgicas e condutores de energia.
Enfatizo a consciência de que o barro está em toda parte. É mais presente do que percebemos. Se prestarmos atenção, ficaremos surpresos com a quantidade de coisas feitas de barro a nossa volta, nos dando vida e qualidade de vida. Desde a terra onde plantamos o alimento, artefatos cotidianos, como pratos, tijolos e telhas até a alta tecnologia, todos têm o barro na sua composição. Mas nosso foco é “o barro na arte” e quero comentar um pouco sobre esta descoberta de seu potencial expressivo – uma experiência vivida pelo ser humano em diferentes contextos e com diferentes resultados. Vale ressaltar que o próprio Brennand passou por um momento de busca, iniciando seu trabalho artístico em suportes bidimensionais, antes de reconhecer o barro como uma possibilidade para sua magnífica produção.
Esse barro, que pela ação do fogo se transforma em cerâmica, alcançou do Oriente ao Ocidente um reconhecimento como material expressivo, com obras impressionantes que por sua beleza e resistência à intempérie atravessaram a História, como é o caso da cerâmica Etrusca, da belíssima cerâmica da Grécia Clássica, dos impressionantes Guerreiros de Xi’an, da dinastia Quin, e tantas outras produções ancestrais. Este histórico passa, aliás, pela cerâmica pré-colombiana, pela Renascentista e modelagens Barrocas, chegando aos monumentos e às instalações contemporâneas.
Ou seja, o barro é um material facilmente encontrado na natureza. Está a nossa disposição. E no que diz respeito a suas potencialidades, sabemos que os artistas apreciam o barro pela sua plasticidade e capacidade de ser modelado, por apreender cada gesto dado – o barro tem memória. E justamente por lidar com ele em meu cotidiano, reflito sobre seu inesgotável potencial poético a ser explorado.
Minha afirmação é pontuada na prática artística, no repertório e convivência acadêmica e também na pesquisa que coordeno na USP, com o objetivo de desenvolver ainda mais a materialidade do barro in natura por meio de novas massas que propiciem novos resultados estéticos, ultrapassando sempre o limite do conhecido.
Por isso, também, escolhi para mostrar e comentar aqui o trabalho de alguns artistas que, a meu ver,  apresentam  como única característica em comum o uso do barro de forma inventiva e ousada, investigando e experimentando seus limites dentro do contexto das artes visuais.
Estes artistas alcançam diferentes resultados em seus processos, seja pela pesquisa e experimentação, seja pela incorporação do que chamam de “acaso” ou “erro” em sua poética. Vale destacar ainda que, quando cito o “processo de trabalho” o vejo como criação, técnica e tecnologia, com limites tênues ou inexistentes entre eles.  Essa perspectiva adotada pela crítica genética, área de estudo da semiótica, coloca-nos diante do processo não somente como “modo de fazer”, mas como caminho e registro da criação do artista.
A seleção certamente exclui muita gente e muitas obras admiráveis. Além disso,  há uma carência de edições sobre cerâmica artística no Brasil e é muito difícil encontrar processos de trabalho documentados. Por isso, a fim de apresentar um breve panorama, comento as obras de alguns artistas reconhecidos mundialmente.
Arnold Annen é suíço e trabalha investigando formas, espaços e luzes em diferentes escalas. Seu trabalho é o resultado de muitos anos de disciplina e treinos rigorosos, onde adota a filosofia da “perfeição imperfeita”. Ele trabalha com a porcelana – um material clássico –  e sempre busca ultrapassar seus limites esperados. Um dos exemplos de sua prática é a incorporação do “erro”,  seja ele uma rachadura ou descascamento da  superfície, ou ainda inesperados resultados de queima.
Já artista holandês, Wouter Dam, começa torneando vasos clássicos que através dos cortes e junções se transformam em formas barrocas com contornos irregulares que captam o olhar.  São formas orgânicas marcadas por uma regularidade mecânica. São abertas em ambos os lados, revelando o interno e anulando sua funcionalidade primeira.
Os artistas Lesley Thompsom, Nádia Saad, Thomas Hoadley e Mieke Everaet têm em comum um resultado de superfície que se assemelha a uma pintura. Lesley Thompsom apresenta desenhos ópticos gravados com uma forte influência das artesãs americanas,  nativas da Califórnia,  que fazem trabalhos em prata, tecelagem, cestaria e cerâmica decorada com engobe. Isto confirma o seu interesse em superfícies decoradas. Ela aprendeu com estas artesãs que fazer arte é um processo contínuo e em seu trabalho Lesley engoba as peças e em seguida cava a superfície em desenhos padronizados.
Nádia Saad,  brasileira, trabalha as massas em sua plasticidade  de maneira mais direta – pigmentando-as,  tocando-as, amassando-as e sobrepondo as  cores em composições. A forma  e a temática predominante são o globo, mesmo  quando diz produzir flores, pratos ou outras formações. A sua poética evoca a idéia de planetas de maneira lúdica.
Thomas Hoadley também pigmenta as massas, mas de uma maneira mais programada e organizada que ao serem cortadas resultam em desenhos geométricos que são reorganizados em composições e volumes diversos.
Mieke Everaet cria uma grande gama de massas pigmentadas que organiza como uma grande paleta. A partir daí faz finas placas que recorta em pequenos fragmentos, para recompô-los em forma próprias, com o auxílio de moldes de gesso. Este processo resulta num mosaico de pequenas incrustações.
Anna Noel. Outra possibilidade do trabalho cerâmico é a encontrada na obra de Anna  Noel.  Ela explora a modelagem fragmentada de partes do corpo do modelo para agrupá-las depois. Este processo milenar, presente também nos Guerreiros de Xi’an, assume uma contemporaneidade por sua temática universal. Sobre isso, quero registrar que hoje, na região de Xi’an, está sendo formado um complexo de museus internacionais de cerâmica.  Uma iniciativa que inclui o convite para residências artísticas de representantes do mundo todo e que eu, particularmente, estou feliz por poder vivenciá-la em setembro próximo. Quero registrar o convite a todos para a palestra que apresentarei sobre esta experiência, em novembro,  no Salão e Congresso de Cerâmica, em Curitiba.
Peço licença para pontuar também meu olhar pessoal e meu desdobramento poético partindo de um ponto semelhante. Há alguns anos fiz uma exposição  sob o título “Sombras chinesas” na qual explorei a multiplicidade humana em módulos descontruídos. Aliás, a amplitude poética do módulo em seus desdobramentos é o processo de trabalho que mais propicia minha criação. Escolho formas simples e compactas que decomponho em fragmentos para recompô-los em inúmeras formas singulares.
Compartilho este processo com artistas como Phillippe Barde e Piet Stockmans.
Phillipe Barde é um ceramista suíço que trabalha com os múltiplos em porcelana, contrastando a fragilidade desse material à  dureza e à brutalidade das rochas. Além disso,  seu trabalho com a fundição é mais um exemplo marcante do quanto obra e  processo são uma coisa só.
Piet Stockmans, que tem uma experiência de trabalho na indústria cerâmica, traz este universo para seu trabalho poético, onde a precisão, a pesquisa e a experimentação se revelam como processo criativo.
Yo Akiyama – Um raciocínio que merece uma atenção especial é  o do japonês Yo Akiyama, que a diz “trabalhar o barro como material e a cerâmica como tecnologia”. Para ele, “fazer cerâmica é fazer pedra”. O seu processo criativo é orquestrar as fissuras no barro.  Um cilindro é torneado,  rasgado e aberto para transformar seu interno em externo. As peças são unidas para criar uma nova forma e depois de secas, cobertas com uma barbotina preta,  e queimadas a 1250°C.
Satoru Hoshino – Outras experiências interferem no caminho de descoberta do artista. Satoru Hoshino, japonês conhecido mundialmente, alterou o curso de seu processo artística após ter seu ateliê soterrado por um deslizamento de terra em 1986. A partir disso, o barro que conhecia como matéria a ser manipulada em escala humana,  assumiu em seus trabalhos um caráter de energia universal, destrutiva e dinâmica.  Em depoimento, diz “quando acontece um desastre, as pessoas estão no caos. Elas podem criar passagens pelo caos“. Seu trabalho é uma resposta a uma experiência concreta e vivencial.
Violette Fassbaender é uma artista suíça que observa a formação rochosa de seu entorno (nos Alpes Suíços), com grandes áreas planas e fendidas, e transmite a seus trabalhos suas percepções.
David Roberts é um inglês que mora numa região montanhosa e observa da janela de seu ateliê formações geológicas bem definidas que o inspiram para seus trabalhos.  São formas puras, feitas com rolinhos, processo que lhe permite realizar suas idéias, tendo a natureza e a paisagem como direção e orientação para seu trabalho.
Lawson Oyekan é um artista nigeriano que trabalha com o barro vermelho, criando corpos com superfícies repletas de bulbos, pontas e vazios. Ele acredita que a energética incisão sobre as superfícies úmidas lhe propiciam uma relação mais vigorosa com o trabalho,  além de suscitar as referências místicas locais. Seu processo adquire também um caminho simbólico,  atribuindo a cada elemento da peça diferentes momentos da vida,  fragmentos ou caos que ele diz capturar e colocar juntos. O furos entram como relação mística que dissipa a escuridão espiritual e trazem a possibilidade de respirar.
Felicity Aylieff é uma artista envolvida com a pesquisa de diferentes massas com cargas e pigmentos que resultam em aspectos de conglomerados como o granito e os mármores. Ela trabalha em grandes dimensões e parte de modelos realizados em espuma de poliuretano.
Jun Kaneko, artista japonês que também explora as grandes dimensões, transita por inúmeras práticas da cerâmica: as diversas maneiras de modelar e fundir,  de esmaltar, de engobar, de gravar – tanto em formas orgânicas como geométricas. Seus trabalhos refletem uma relação entre oriente e ocidente, pela sistematização intencional e pela liberdade estética da experimentação no conjunto da obra.

Enfim, minha fala nesse congresso teve como objetivo despertar o olhar para a amplitude do barro na arte.  Como disse no início, este “breve panorama” é ínfimo diante da grandeza deste evento e das possibilidades expostas por tantos artistas no mundo. Agradeço carinhosamente o privilégio do convite da Fundação Brennand ,e espero que o contato com essa diversidade ganhe divulgação também nos trabalhos artísticos-educativos realizados no Brasil, incentivando, inclusive, a importância de registrar o processo criativo em oficinas e ambientes de arte.

Profa. Dra. Norma Tenenholz Grinberg
Escola de Comunicações e Artes – ECA/USP

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